Dúvidas frequentes sobre a Giárdia Canina

1) Encontrei cistos em um animal com diarreia. Posso dizer que a causa da diarreia é a Giardia?

Não. A maioria dos animais infectados pela Giardia é assintomática. Por isso, encontrar os cistos em um animal com diarreia ou vômito, por exemplo, não necessariamente significa que a causa dos sintomas seja a infecção pelo protozoário. Outras causas de diarreia aguda ou crônica devem ser consideradas no diagnóstico diferencial, tais como infecção por helmintos ou outros protozoários, doença intestinal inflamatória, intolerância alimentar, neoplasias intestinais, entre outras. Obviamente, a resposta ao tratamento com avaliação concomitante da eliminação de cistos pode indicar se a infecção era ou não responsável pelos sintomas.

2) Um animal com 3+++ de cistos de Giardia no exame de fezes tem giardíase mais grave que um animal com 1+?

Não necessariamente. A gradação da quantidade de cistos nas fezes é feita pelo analista de laboratório com base na amostra recebida. Contudo, a excreção de cistos oscila com o tempo em um mesmo animal. Ou seja, há dias em que se pode encontrar mais cistos que em outros. Além disso, dentro do mesmo bolo fecal, há diferenças nas quantidades de cistos por região (interna ou externa, por exemplo). Dependendo de como a amostra foi colhida pelo tutor e/ou homogeneizada no laboratório, pode haver variação na taxa de detecção pelo exame. Sendo assim, a interpretação de 1+, 2++ ou 3+++ no exame deve indicar simplesmente infecção, não sendo recomendável relacionar a gradação de cistos com a gravidade do quadro clínico ou carga parasitária no intestino delgado. Da mesma forma, a gradação não deve servir como forma de monitorar a resposta ao tratamento. Por exemplo, um animal com 3+++ antes do tratamento e 1+ após deve ser considerado ainda infectado, ou seja, o tratamento não foi eficaz.

3) Posso descartar giardíase com apenas 1 único exame coproparasitológico?

Não. Como a eliminação de cistos é intermitente, é possível obter resultados falso negativos com 1 única amostra. Várias referências apontam a necessidade de colher mais de 1 amostra dentro de períodos variáveis para o diagnóstico.1-3 A recomendação mais atual é que sejam colhidas pelo menos 3 amostras dentro do intervalo de 1 semana.2 Em um estudo com amostras colhidas em dias consecutivos, a sensibilidade diagnóstica de um único exame foi de 72%, de 2 exames foi de 94% e de 3 exames 100%.4 Quando os exames são feitos de forma consecutiva, não se recomenda que as amostras fiquem armazenadas pelo tutor sob refrigeração para que todas elas sejam enviadas ao laboratório ao mesmo tempo, pois pode haver alteração de estrutura dos cistos, dificultando o diagnóstico. Cada amostra deve ser remetida ao laboratório no dia em que foi colhida o mais rapidamente possível. Independentemente do intervalo exato entre colheitas, é importante ter em mente a necessidade de exames pareados para o diagnóstico.

4) Quem é melhor para o diagnóstico: exame coproparasitológico ou teste para pesquisa de antígenos de Giardia?

Depende da finalidade do exame. Se a preocupação for exclusivamente a infecção pela Giardia, os testes para pesquisa de antígeno possuem sensibilidade diagnóstica mais elevada, em geral superior a 90% e, na dependência do teste, muito perto de 100%; a especificidade também é próxima de 100%.2,4,5 Contudo, o teste para pesquisa de antígenos não é capaz de detectar outros parasitas intestinais, tais como Ancylostoma, Toxocara, Toxascaris, Trichuris, Cystoisospora, entre muitos outros. Assim, o coproparasitológico é mais completo em termos de possibilidade de detecção de parasitas, embora tenha sensibilidade menor para giardíase que os testes de antígenos quando apenas 1 amostra de fezes é analisada. Como parasitismo (de forma geral) é importante como causa de diarreia, o exame coproparasitológico deve ser feito sempre que possível, com a pesquisa de antígenos sendo empregada para reforçar a pesquisa de Giardia nos casos de elevada suspeição clínica.

5) Quando devemos fazer exames de fezes ou teste para pesquisa de antígenos para o controle de cura da giardíase?

Um animal tratado pode eliminar cistos, trofozoítos ou seus fragmentos durante o tratamento ou por alguns dias após o tratamento. O período exato durante o qual essa eliminação ocorre, em particular dos antígenos de Giardia, não é conhecido. No entanto, como o período pré-patente de Giardia (tempo entre a ingestão de cistos e a eliminação de cistos novos nas fezes) pode ser tão curto quanto 4 dias no cão (4 a 12 dias, com média de 8 dias)2 , recomenda-se fazer os exames para controle de tratamento nos primeiros dias após o seu término. Por exemplo, se um exame coproparasitológico controle for feito 10 dias após o fim do tratamento e o resultado for positivo, será impossível dizer se o tratamento efetivamente falhou ou se houve reinfecção dentro destes 10 dias. Uma recomendação razoável com base no ciclo do parasita seria fazer o controle antes de 4 dias, pois, em teoria, não haveria tempo hábil para um cisto ambiental ingerido provocar uma nova infecção e, por conseguinte, cistos novos nas fezes. O número exato de exames coproparasitológicos ou testes de antígenos para controle de cura após tratamento não foi cientificamente determinado. Todavia, considerando-se que o tratamento deve reduzir ao menos parcialmente a quantidade de parasitas no intestino delgado e que, antes do tratamento (quando a carga parasitária é teoricamente maior), são necessários exames pareados devido à excreção intermitente dos cistos, imagina-se que um único exame não seja suficiente para avaliar a eficácia do tratamento. Neste tipo de situação, não se sabe se a realização de 3 exames coproparasitológicos seria suficiente; também se desconhece por quanto tempo os antígenos de parasitas mortos podem ser detectados nas fezes. A despeito dessas dúvidas, exames controles devem ser sempre conduzidos logo após o tratamento, relacionando-se os seus resultados ao quadro clínico do animal.

6) Tratei um animal com giardíase. Preciso repetir o tratamento algumas semanas depois?

Um curso único de tratamento costuma ser eficaz na eliminação dos trofozoítos intestinais. Porém, como frequentemente os medicamentos empregados (como fembendazol, por exemplo) objetivam também atingir helmintos, a repetição pode ser desejável para eliminar formas jovens destes parasitas que maturaram do primeiro para o segundo tratamento, tornando-se suscetíveis. Além disso, como a reinfecção pela Giardia é um problema muito comum, repetir o ciclo terapêutico 2 a 4 semanas após pode eliminar protozoários adquiridos após o primeiro tratamento, durante o período em que o controle ambiental ainda estava sendo implementado.

7) O que é a GiardiaVax e o que ela pode oferecer de benefício aos animais vacinados?

GiardiaVax é uma vacina contendo trofozoítos inativados, os quais estimulam a imunidade do cão para auxiliar na prevenção da doença clínica causada por Giardia. Em outras palavras, animais vacinados e desafiados por cistos ambientais não devem apresentar quadro clínico de giardíase (diarreia e vômitos, principalmente) ou então terão sintomas em gravidade muito menor do que se não fossem vacinados. Além disso, a vacina reduz significativamente a quantidade dos cistos eliminados, bem como a duração de eliminação após um desafio. A importância disso reflete-se na redução da contaminação do ambiente, minimizando a possibilidade de infecção de cães, outros animais domésticos e o homem. O objetivo de GiardiaVax é a prevenção da giardíase, e não o tratamento em si. Existem estudos contraditórios quanto à eficácia da vacina no tratamento de infecções já instaladas, razão pela qual não se recomenda o seu uso com essa finalidade.

8) O tratamento com medicamentos antiprotozoários é suficiente para controlar a giardíase?

Os cistos de Giardia podem resistir no ambiente por períodos longos, sendo fonte constante de reinfecção aos cães. Além da vacinação, que reduz a contaminação do ambiente, medidas complementares são essenciais para o sucesso do tratamento. Um ponto muito importante é verificar a fonte da água de bebida dos animais, pois a giardíase tem veiculação hídrica. O tratamento simultâneo de todos os animais (cães e gatos) de um ambiente compartilhado é obrigatório; a possível infecção humana deve ser avaliada por um médico e tratada se preciso. Os animais devem ser banhados antes e após o tratamento para remover eventuais cistos eliminados pelas fezes como consequência do tratamento; se possível, a limpeza perineal diária e/ou a cada defecação pode ajudar neste processo. A mudança dos cães de um ambiente contaminado para um limpo no último dia de tratamento pode contribuir para minimizar as reinfecções. Igualmente, a limpeza ou eliminação de fômites contaminados e o tratamento de animais introduzidos em ambientes livres de contaminação são relevantes.

Por fim, os cistos de Giardia são sensíveis a desinfetantes à base de amônia quaternária, luz solar e dessecação.

 

Artigo referência Zoetis