Desordens do Sistema Lacrimal

Profª Drª Ana Maria Barros Soares
Sistema Secretor
1.1 Lacrimejamento Excessivo
1.2 Cerato Conjuntivite Seca (CCS)

Sistema de Drenagem
2.1 Atresia Congênita, Ectopia e Ponto Imperfurado
2.2 Obstruções do Sistema Naso-lacrimal
2.3 Dacriocistite
2.4 Cromodacriorréia

1. Sistema Secretor
1.1 Lacrimejamento Excessivo
Definição:
• Ocorre pela estimulação das glândulas (lacrimal e da terceira pálpebra).
Etiologia:
• Agentes geram dor ou irritação ocular: corpo estranho, fármaco, ceratite ou conjuntivite, triquíase, distiquíase.
Sinais:
• Lacrimejamento: excesso na produção de lágrima.
• Epífora: extravasamento da lágrima pelo canto medial.
• Cromodacriorréia: em alguns animais a lágrima leva à uma mancha marrom (Figura 1).

  • Figura 1: Animal da raça Poodle apresentando epífora e cromodacriorréia devivo à obstrução do ducto naso-lacrimal.

1.2 Ceratoconjuntivite Seca (CCS)
Definição:
• Deficiência aquosa do filme pré-corneano causando mudanças inflamatórias excessivas na córnea e conjuntiva.
Etiologia:
• Congênita/ Hereditária: Bulldog inglês, West highland white terrier, Lhasa apso, Cocker spaniel, Pug, Pequinês, Yorkshire, Shih tzu, Schnauzer, Boston terrier, Teckel.
• Relacionada ao uso de fármacos: atropina – tópica e sistêmica; sulfonamidas: sulfadiazina; fenazopiridina; anestésico tópico.
• Doenças Sistêmicas: Paramyxovirus (cinomose); Herpesvirus (rinotraqueíte).
• Blefaroconjuntivite Crônica: afeta os ductos lacrimais.
• Neurogênica.
• Adenite imuno-mediada das glândulas lacrimais: é a causa mais comum de CCS em cães.
• Traumatismo ocular.
• Iatrogênico: retirada da glândula da terceira pálpebra.
Sinais Clínicos:
• Aguda: blefarospasmo, conjuntivite, secreção mucosa, úlcera de córnea, aparência seca (Figura 2).
• Crônica: proprietários relatam infecção crônica nos olhos, secreção muco-purulenta, córnea sem brilho com neovascularização e pigmentação (Figuras 3, 4, 5, 6 e 7). Blefarite secundária constitui-se um achado constante.
Diagnóstico:
• Teste lacrimal de Schirmer (Figura 8): normal 15-25 mm/minuto (15mm/minuto – sinal de redução na produção – associar aos sinais clínicos).
• Corante Rosa Bengala: epitélios da conjuntiva e córnea permanecerão vermelhos se desvitalizados ou necróticos.
• Corante de Fluoresceína: para diagnóstico de úlceras. Também utilizado para o teste do tempo de ruptura do corante de fluoresceína.
  • Figura 2: Ceratoconjuntivite seca aguda em canino portador de Cinomose. Note muco, crostas e pouco brilho na córnea.

  • Figura 3: Ceratoconjuntivite seca crônica em canino da raça Cocker. Note muco, crostas e vascularização corneana.

  • Figura 4: Ceratoconjuntivite seca crônica em canino da raça Poodle. Após a limpeza do muco aplicou-se corante de fluoresceína para detecção de possível ulceração corneana. Note córnea seca, edemaciada com vascularização e pigmentação.

  • Figura 5: Ceratoconjuntivite seca crônica em canino da raça Poodle (após limpeza do muco). Note córnea seca, edemaciada com pigmentação.

  • Figura 6: Ceratoconjuntivite seca crônica em canino da raça Beagle. Note muco, córnea seca, edemaciada com vascularização e pigmentação.

  • Figura 7: Ceratoconjuntivite seca crônica em canino da raça sem raça definida. Note muco, crostas, córnea seca, edemaciada com vascularização e pigmentação.

  • Figura 8: Teste lacrimal de Schirmer realizado em olho de um felino. Mede a produção de lágrima em milímetros por um minuto.

2. Sistema de Drenagem
2.1 Atrofia Congênita, Ectopia e Ponto Imperfurado
Etiologia:
• Congênito – Cocker spaniel americano, Poodle toy e miniatura.
Sinais:
• Epífora - Cromodacriorréia (mancha marrom por onde a lágrima extravasa).
Diagnóstico:
• É realizado através da observação dos pontos lacrimais com auxílio de uma lupa.

2.2 Obstruções do Sistema Nasolacrimal
Etiologia:
• Congênita.
• Inflamatória: Dacriocistite.
• Corpo estranho.
• Traumatismo.
• Neoplasia.
• Cicatricial.
Sinais:
• Dependem da causa.
• Inflamatória/ Corpo estranho: Epífora, secreção muco-purulenta, conjuntivite, dor à palpação do canto medial, abscessos em casos graves.
• Congênita/ Neoplasia / Cicatricial: Epífora.
Diagnóstico:
• Teste da patência do ducto nasolacrimal (Teste de Jones): aplicação tópica de corante de fluoresceína no olho do animal e observação da drenagem da lágrima com o corante pela narina (Figura 9). Caso isto não ocorra, ou o canal está obstruído ou o ponto nasal está situado mais atrás, sendo a lágrima drenada para a orofaringe.
• Dacriocistorinografia.

  • Figura 9: Teste da patência do ducto nasolacrimal. Note corante de fluoresceína no olho do animal e drenagem da lágrima com o corante pela narina.

2.3 Dacriocistite
Definição:
• É a inflamação do ducto nasolacrimal e saco lacrimal.
Etiologia:
• Corpos estranhos; conjuntivite; debris.
Sinais Clínicos:
• Epífora, exsudato mucopurulento, conjuntivite, dor, dermatite eritematosa do canto medial, abscesso do saco lacrimal, história de conjuntivite unilateral recorrente, narina seca.
Diagnóstico:
• Teste de Jones ou Teste de patência do ducto nasolacrimal.
Implicações: • O foco infectado dentro da porção proximal do ducto pode reinfectar o saco conjuntival, resultando em conjuntivite e vice-versa.
• Cromodacriorréia (mancha marrom no canto medial).

2.4 Cromodacriorréia
Definição:
• Mancha causada por pigmento (semelhante a lactoferrina) existente na lágrima e na saliva (Figuras 10 e 11).
• Não é uma doença e sim um sinal que pode ser gerado por excesso de produção de lágrima (lacrimejamento) ou deficiência na drenagem da lágrima. Independente da causa observa-se epífora (extravasamento da lágrima pelo canto medial).
Etiologia:
• Triquíase, distiquíase, cílio ectópico, conjuntivite, entrópio de canto nasal, agenesia do ponto lacrimal.
  • Figura 10: Canino da raça Poodle, apresentando cromodacriorréia por obstrução dos ductos nasolacrimais.

  • Figura 11: Canino da raça Poodle 45 dias após desobstrução dos ductos nasolacrimais. Note diminuição acentuada da cromodacriorréia.